Bebeto

Por Os Cães do Parque


O cachorrinho magrelo aparecera no parque há muito pouco tempo. Na verdade, nós só o havíamos visto duas ou três vezes, se tanto: o bastante para notar que era jovem, amistoso e esfomeado. Se continuasse por ali, certamente trataríamos em breve de abrigá-lo e prepará-lo para adoção.


Porém, Bebeto precipitou as coisas. Foi flagrado cometendo um pecado imperdoável para cachorros no parque, que é uma unidade de conservação: perseguir bichos silvestres. 

Embora não seja um fato muito comum, porque os poucos cães fixados no parque hoje em dia são, em sua maioria, já idosos e acostumados aos animais silvestres, nós já observamos vários cães perseguindo aves e incomodando capivaras - aparentemente muito mais por 'diversão' do que por intenção de ferir ou matar. Preta Mattar, Gigante, Ari (todos adotados) e a falecida Mel protagonizavam essas perseguições no passado.

O fato é que, contou-nos um segurança do parque, o novato havia sido visto circulando pelo lugar, entre os visitantes, com um filhote de pato (morto) na boca, como fosse a coisa mais natural do mundo. Dado o flagrante, o meliante foi sumariamente tirado de circulação e encarcerado até que seus advogados (nós, no caso) chegassem e assumissem sua tutela.


Bebeto ficou com a gente por duas semanas, tempo o bastante para comprovar que era um amor com pessoas, porém, de fato, um caçador nato: durante os passeios diários, tentava enlouquecidamente sair em disparada atrás de qualquer coisa que se movesse, fosse um passarinho, um gato ou um inseto.

Cão ágil, inteligente e cheio de energia, sofreu por ter sido obrigado a permanecer algum tempo confinado.

Anunciado para adoção, para auxiliar no seu marketing, Bebeto ganhou um vídeo clipe:




O caçadorzinho do parque teve sorte. O médico Cláudio Matheus procurava um cão para adotar e para fazer companhia à sua pastora Luna, segundo ele muito triste após o falecimento recente de outro cão da família. 

O dr. Cláudio veio conhecer o Bebeto e a empatia foi imediata.

Preenchidas todas as formalidades, no dia 03 de Junho de 2012, com o apoio da Heloísa Domingues, Bebeto foi conduzido até seu novo lar, na zona sul de São Paulo, bem longe do parque - e das aves do parque.

Foi recebido numa casa grande, com muito espaço para que ele se esqueça rapidamente de seu curto período de 'cárcere'. Foi rebatizado como 'Luque' e conheceu a linda Luna, com quem, pelo que o dr. Cláudio nos informa, está se entendendo muito bem.

Bebeto se despede do parque




Bebeto e Heloísa: embarcando para a nova casa
Bebeto com o dr. Cláudio: empatia imediata

Bebeto e sua nova amiga, Luna
Os Cães do Parque são nada mais do que um reduzido grupo de pessoas que, inconformadas diante de um cenário que incomodava e entristecia, resolveu fazer mais do que reclamar e lamentar, e passar a agir. Tudo o que sabemos hoje sobre animais abandonados em um determinado parque estadual de São Paulo (e não é pouco o que sabemos!), aprendemos nos últimos dois anos e meio: na prática, na 'raça', no dia a dia, pisando na lama, levando mordidas, errando e acertando.

Ninguém nos preparou para isso, ninguém nos deu treinamento para essa tarefa, nós não prestamos concurso público para executar esse trabalho e o Estado não nos paga nada.

Contudo, já são mais de 150 bichos tirados do abandono e encaminhados de forma responsável para lares regulares, sem alardes, sem dramas, sem pedir nada a ninguém. Se isso não é política pública e se isso não é cuidar de uma questão de 'meio ambiente', nós não sabemos o que é.

Paradoxalmente, nós ainda somos obrigados a lidar rotineiramente com a incompreensão e a antipatia por parte de alguns agentes públicos, a respeito da natureza do trabalho que realizamos. Quem deveria fazer, quem deveria ter iniciativa e criatividade para implantar políticas, muitas vezes prefere ficar encastelado em suas salas, defendendo seus pequenos privilégios e imaginando que, em 2012, ainda é possível lançar mão de soluções simples e de cunho 'sanitário' para esse problema.

Nós chamamos isso de empáfia. De arrogância. De preguiça. 

Nós somos a sociedade civil. Observamos, relatamos, registramos, fiscalizamos. E, além de tudo, fazemos.

Nós não temos medo de sujar as mãos.

4 comentários:

  1. CLAUDIO O MATHEUS6 de junho de 2012 07:26

    Muito bem! Este pessoal da cães do parque, são pessoas que realmente modificam a sociedade.Todos nós podemos fazer alguma coisa em algum lugar, para sermos mais humanos e mais fraternos.
    O Luck (é assim que vai ser escrito) já é da nossa família. Obrigado.

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  2. que história linda! e que cão lindo, hein! que cara! linduco! que seja muito feliz com sua família (e sua irmã). ;)

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  3. Linda história!!!! Boa sorte a todos!!!! Parabéns Dr Claudio, por pensar em sua cachorra em casa p ter companhia a ela...., e tbm por não ter preconceito e adotar um srd (são os melhores,,,), que sejam muitos felizes todos vcs. Fiquem com Deus!!!!

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